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O Bando de Surunyo

_24_out_dom / 16h30
_Convento de São Pedro de Alcântara

Cambarito – cânticos de devoção e independência durante a Guerra da Restauração

Política, devoção e comédia num programa poético e sonoro em torno de Portugal no século XVII

O Bando de Surunyo

Hugo Sanches | Direção

Hugo Sanches | Diretor Musical / Guitarra barroca
Eunice Abranches d’Aguiar | Soprano
Marta Martins | Soprano
Raquel Mendes | Soprano
Helena Correia | Alto
Patrícia Silveira | Alto
Carlos Meireles | Tenor
Gabriel Neves dos Santos |Tenor
Sérgio Ramos | Baixo
Marta Vicente | Violone

1. Conduzidos de la fama
Loa cantada em castelhano (a 7)

2. Cante glória Portugal*
Vilancico em português e castelhano (em diálogo e a 8)

3. Livre das prizoens estranhas*
Para as graças do reino – Jacra em português e castelhano (só, a 4 e a 8)

4. Cambarito maná mundele totá
Vilancico de negro (em diálogo e a 8)

5. Em esta noble Lisboa*
Vilancico em português e castelhano (em diálogo e a 8)

6. A tributar alegria*
Vilancico em português e castelhano (só, a 4 e a 8)

7. Al supremo Rey que nasce*
Para o Natal de 663 – ensalada em castelhano, negro e ratinho (em diálogo e a 8)

8. Desbiar, desbiar
Vilancico de galegos (a 8)

As obras assinaladas com * são apresentadas em primeira audição moderna.
Todas as obras foram editadas a partir das fontes manuscritas por Hugo Sanches.
Todas as obras são de autor desconhecido, provenientes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra entre cerca 1644 e 1663. Excetua-se Para regalo y bien mio (de Juan Bautista Comes) incluída na reconstrução da enselada em 3 idiomas.

“Se as armas do campo vos pasmam, o canto na Igreja mais há-de pasmar”

(Manuscrito musical 227 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra)

A Guerra da Restauração entre Portugal e Espanha (1640-1668) assistiu a um período de fecunda produção literária em defesa da causa independentista portuguesa. Para além de panfletos, tratados, sermões, teatro e poesia, foi também escrita e cantada música que exaltava a recém-entronizada casa de Bragança e alentava os portugueses ao combate contra Castela.

Tendo o terramoto de 1755 obliterado a valiosíssima biblioteca musical de D. João IV, os exemplares sobreviventes deste repertório que hoje conhecemos encontram-se em manuscritos provenientes do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. É esta música que aqui resgatamos do seu longo e injusto silêncio.

Um dos aspetos mais extraordinários deste repertório é o modo como o discurso religioso e o político se fundem e até, por vezes, confundem. Desempenhando o espaço devocional um papel de primaz importância cultural e social no século XVII, a mensagem autonomista encontrava aí uma plataforma fundamental para a sua veiculação, incorporando-se nos popularíssimos vilancicos religiosos que se cantavam e representavam nas festas maiores do calendário litúrgico. Assim, é

Deus Ele próprio que legitima a causa portuguesa, estabelecendo-se um paralelo entre o Seu reino e o reino de Portugal. O combate contra o demónio é o combate contra Castela. D. João IV adquire um estatuto quási-messiânico enquanto figura que salvará Portugal, espelhando a própria vinda de Cristo. Até Belém de Lisboa partilha o nome com a cidade Natal de Jesus, um recurso poético amplamente utilizado nesta música.

Destinadas aos ofícios litúrgicos de diferentes festas (com particular destaque para o Natal), as obras que aqui apresentamos (a maioria em primeira audição moderna) exibem uma surpreendente combinação de louvor, patriotismo e teatralidade, adquirindo forma e matéria sonora pela mestria composicional dos músicos crúzios. A música será intercalada por excertos de sermões de Padre António Vieira que, de modo análogo, incorporam na mensagem religiosa, palavras de reflexão e alento para a guerra que grassava, justapondo assim a eloquência do grande mestre português da palavra à beleza luminosa da empolgante música de Santa Cruz de Coimbra.