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6 NOV
21h00

MOZART À PORTUGUESA E O CLASSICISMO EM PORTUGAL

01 AMERICANTIGA ENSEMBLE 02 AMERICANTIGA ENSEMBLE 03 AMERICANTIGA ENSEMBLE 04 AMERICANTIGA ENSEMBLE 05 AMERICANTIGA ENSEMBLE

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AMERICANTIGA ENSEMBLE

AMERICANTIGA ENSEMBLE

Ricardo Bernardes DIRETOR MUSICAL

Mariana Castello-Branco SOPRANO

Arthur Filemon ALTO

Marcio Soares Holanda TENOR

Tiago Daniel Mota BAIXO

Poppy Walshaw VIOLONCELO

Mélodie Michel FAGOTE

Nathaniel Harrison FAGOTE

Duncan Fox CONTRABAIXO

Catarina Sousa ÓRGÃO

Manuela Gonzaga CURADORA LITERÁRIA

Nada te turbe | Santa Teresa de Ávila (1515 – 1582) (1)

David Perez (1711 – 1778)
Subvenite sancti Dei

Noche oscura | Frei Juan de Santa Cruz (1542 – 1591) (1)

José Joaquim dos Santos (1747 – 1801)
Lamentação de Quinta-Feira Santa (1788)

David Perez (1711 – 1778)
Trio em sol menor

Seleção de poemas (Rosto da morte – As sombras) | Delmar Maia Gonçalves (1969 – )(2)

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 – 1791)
Requiem aeternam

Vivo sin viver en mi | Santa Teresa de Ávila (1515 – 1582) (1)
Elegia IV | Frei Agostinho da Santa Cruz (1540 – 1619) (2)
Eso lento fluir de los espejos | Conchi da Silva (1966 – ) (1)
O segundo pranto de Jó – Pai nosso | Manuela Gonzaga (1951 – ) (2)

* Programa inédito
(1) Conchi da Silva, poeta e declamadora
(2) Delmar Maia Gonçalves, poeta e declamador

Em tempos de restrições faz-se necessário pensar em novas soluções para a música de concerto, não apenas em questões práticas relativas à segurança de todos, mas também em trazer obras musicais em consonância retórica com a poesia antiga e contemporânea, juntas a rasgar a janela numa reflexão esperançosa sobre a vida e a morte neste momento histórico tão peculiar pelo que passamos. Os músicos e demais artistas ao longo da história adaptaram-se às adversidades e não deixaram de exercer a sua função social e a sua arte. Desse modo, dar a conhecer a adaptação de obras que possuíam grande força simbólica, como fizeram em outros tempos nas obras musicais que ouviremos, conjuntamente ao contraponto entre a palavra falada e reflexiva da poesia com aquela cantada torna-se uma prática tão desejável quanto necessária.

O concerto, a ser realizado com base na interação entre música e poesia, será centrado na “versão eborense” do Requiem de W. A. Mozart – obra conhecida em Portugal não muitos anos depois da sua composição em 1791 em Viena, assim como em obras inéditas de compositores atuantes na corte de Lisboa na segunda metade do séc. XVIII como José Joaquim dos Santos e David Perez. As obras apresentadas neste concerto fazem parte de uma coleção de manuscritos encontrados na Sé da Évora, em que algumas das obras mais constantemente executadas foram arranjadas para uma solução bastante peculiar e original.

As obras representam uma prática de época em Portugal, iniciada em fins do séc. XVIII, que era a de compor ou adaptar obras escritas originalmente para vozes e orquestra, para uma combinação de vozes acompanhadas apenas pelos instrumentos componentes do baixo contínuo: um violoncelo, dois fagotes, contrabaixo e órgão. Essa prática, similar às que ocorreram em algumas capelas reais, demonstra que também em catedrais como a de Évora, adaptavam-se os instrumentos graves para uma espécie de baixo contínuo expandido, em que o conjunto de era tratado como uma pequena orquestra com um colorido muito particular. Essa prática, muito provavelmente iniciada devido a dificuldades financeiras para a contratação de músicos extras para determinadas cerimónias, também poderia servir como um modo de destacar as capacidades dos músicos efetivos contratados. A escrita para este conjunto de instrumentos é bastante complexa, o que demonstra a destreza técnica dos músicos e as intenções quase “camerísticas” dos arranjadores, não tratando-se de facilitações, mas de verdadeiras versões para os instrumentos graves. É importante notar que, uma vez que as partes existentes possuem diferentes copistas e algumas inconsistências no tratamento dos instrumentos, depreende-se que não se tratam de arranjos necessariamente autorais, mas sim do testemunho de uma prática de época que comprovam um meio musical dinâmico que apreende, absorve, filtra e transforma obras para a sua realidade local de grande riqueza artística e poder de adaptação. O que talvez tenha começado por uma necessidade de economia tornou-se numa marca, numa característica de sonoridade e, ao fim, numa opção estética.

O concerto será realizado com um órgão portátil português da primeira metade do séc. XVIII, propriedade do Americantiga Ensemble e recentemente restaurado pelo organeiro Pedro Guimarães. A afinação com o Lá3 em 418Hz  e o temperamento usado será o mesotónico 1/6 de coma, utilizado em vários órgãos da península ibérica até aproximadamente a década de 1830.

A interação entre a música e poesia dar-se-á com as leituras pela poeta e actriz galega Conchi da Silva, pelo escritor e poeta moçambicano Delmar Maia Gonçalves, que é o presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Serão poemas de profundo carácter reflexivo que tratam de temas da vida e da morte em contraponto às obras musicais apresentadas. A curadoria dos poemas foi realizada pela escritora, poeta e historiadora Manuela Gonzaga de textos de autores clássicos como Santa Teresa D’Avila, São João da Cruz e Frei Agostinho da Cruz  que serão complementados por poemas de autoria dos próprios declamadores.

O Americantiga Ensemble, fundado em 1995 por Ricardo Bernardes, é um conjunto especializado em música portuguesa, brasileira, hispano-americana e italiana dos séculos XVII a princípios do XIX. Com diferentes formações e enfoques interpretativos, o trabalho procura a execução historicamente informada com o uso de instrumentos de época. Nos últimos anos o Americantiga tem realizado concertos em Portugal, nos Estados Unidos, Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia. Muitos desses concertos foram organizados por embaixadas e consulados brasileiros, assim como o Consulado Geral de Portugal em São Paulo, com o objetivo de difundir esta importante e pouco conhecida produção musical. Sua discografia já conta com seis CDs e um DVD, todos dedicados ao repertório português e brasileiro do século XVIII. Em Portugal, em 2011, realizou o concerto na Basílica da Estrela para celebrar os 15 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O agrupamento conta com várias participações nas Temporadas de Música em São Roque em Lisboa, além de vários concertos importantes no ciclo “Memórias e Caminhos de Mateus – Aldeias com Vida assim como nas várias atividades dos XXVIII Encontros Internacionais de Música da Casa de Mateus.